A Residência do Embaixador dos EUA em Portugal é agora Casa Carlucci

Tradução – Original em Inglês

6 de Setembro de 2019

Senhor Ministro,
Vossa Eminência,
Excelências,
Senhoras e Senhores,

Eu e a Mary estamos encantados por vos receber na Casa Carlucci. Esta é uma ocasião muito especial, a dedicação desta residência histórica à memória de Frank Carlucci que, ao fim de uma vida extraordinária, nos deixou no dia 3 de Junho do ano passado. Dou as boas-vindas à viúva do Embaixador Carlucci, Marcia Myers Carlucci, à filha Kristin Carlucci Weed e ao filho e nora Chip e Yvette Carlucci, que fizeram uma longa viagem dos Estados Unidos até cá para estarem connosco esta noite. O que Frank Carlucci fez ao serviço dos Estados Unidos é realmente notável. Seria motivo de orgulho chegar a uma das muitas posições de relevo que ele teve na sua longa carreira: Subsecretário de um departamento, Subdirector da CIA, Conselheiro de Segurança Nacional, Secretário da Defesa Adjunto e, claro, Secretário da Defesa do Presidente Ronald Reagan no fim da Guerra Fria.

O que estamos hoje a celebrar é, evidentemente, o seu serviço como Embaixador dos Estados Unidos em Portugal entre 1975 e 1978, anos críticos da transição do país para a democracia. O grande feito de Frank Carlucci como Embaixador foi convencer Washington a apostar nas forças moderadas e democráticas de Portugal como as grandes vencedoras da revolução portuguesa.

Como refere no seu magnífico livro Carlucci Versus Kissinger o Professor Tiago Moreira de Sá, que se encontra aqui hoje, no final de 1974 Washington estava quase resignada à ideia de que as forças pró-comunistas iriam vencer o combate político interno em Portugal. Os partidos pró-democracia eram considerados muito esquerdistas ou muito fracos (ou ambos) para evitar tal coisa. O Embaixador Carlucci foi enviado para Portugal em Janeiro de 1975 e desafiou essa conclusão. Para ele, se tivessem a opção, os Portugueses escolheriam manter o país ancorado na Europa, NATO e com a ligação transatlântica e o resultado das eleições de Abril de 1975 para a Assembleia Constituinte provou isso mesmo. Como todos sabemos, os partidos que hoje são os Socialistas, PSD e CDS-PP tiveram combinados 70 por cento dos votos nessa eleição. Mas Washington estava longe de aceitar que os Socialistas portugueses, que ficaram em primeiro lugar, iriam levar as coisas no sentido democrático.

Durante o Verão Quente de 1975, Frank Carlucci e Mário Soares encontraram-se muitas vezes numa pequena sala a que chamamos o Cesto de Gávea – que começou por ser uma lavandaria – no último andar desta casa para trocarem ideias sobre como garantir que a Revolução Portuguesa não descambava numa nova ditadura. Este era um receio muito sério em Washington, tanto que Henry Kissinger previa que Mário Soares iria ter o mesmo destino de Alexander Kerensky, o chefe do governo provisório russo que foi afastado pelos bolcheviques. Em Agosto de 1975, Carlucci viajou para Washington e foi à Casa Branca justificar o seu apoio aos democratas portugueses, convencendo o Presidente Ford e o Secretário de Estado Henry Kissinger.

Washington então apostou tudo nos líderes democráticos de Portugal, uma decisão confirmada pela derrota do golpe de estado do 25 de Novembro. Quando Mário Soares visitou Washington, em Janeiro de 1976, a conversa com Kissinger era agora sobre o apoio político e económico para a transição constitucional de Portugal. Quando o primeiro governo constitucional português tomou posse em Julho de 1976, com Soares à frente, estava assegurado o futuro democrático de Portugal. Carlucci defendeu então com sucesso o apoio económico para estabilizar as finanças portuguesas e a cooperação militar para a reforma das forças armadas portuguesas.

Esta é uma curta versão da história, claro, e longe de mim dar-vos uma palestra sobre pormenores dos eventos que muitos de vocês viveram. E quero ser muito claro, o que estou a dizer não é que foi Frank Carlucci e os Estados Unidos que trouxeram a democracia para Portugal. Foi Mário Soares e os partidos democráticos que fizeram isso. A contribuição de Frank Carlucci residiu no facto de perceber a situação e a sociedade portuguesa e convencer Washington a ficar ao lado dos seus amigos.

Em 2006, Soares e Carlucci deram uma entrevista conjunta ao Público e perguntaram-lhes o que teria acontecido se as coisas dessem para o torto e Portugal não tivesse seguido a via democrática. Carlucci disse que o Departamento de Estado o teria despedido e os radicais da Administração teriam ficado contentes por se provar que tinham razão. Soares respondeu com um eufemismo, “Para mim, teria sido um bocadinho pior”. Acho que é óbvio que Frank Carlucci percebeu perfeitamente e portanto estava disposto a pôr em risco a sua reputação e carreira para defender aqueles que arriscavam ainda mais para garantir a transição para a democracia em Portugal.

Olhando para trás, parece estranho que Washington tenha levantado dúvidas sobre Mário Soares pois sabemos agora como ele era um atlantista irredutível. Gostei de saber que anos mais tarde, num encontro da Internacional Socialista, um líder partidário europeu – não interessa quem – se vangloriou que se ganhasse as eleições no seu país, iria obrigar os Estados Unidos a retirar os mísseis de cruzeiro do seu território. Soares respondeu “Bem, espero que perca as eleições.” Em 1975 eram poucos aqueles que nos Estados Unidos estavam com vontade de apostar nos socialistas portugueses – felizmente Frank Carlucci tratou de conhecer bem Soares.

Ao pensar tantas vez nesses tempos críticos – e isso passa-se constantemente dado que moro aqui – acabei por perceber que foi uma sorte que Frank Carlucci e Mário Soares tenham sido os escolhidos da história para desempenhar os seus papéis numa altura tão crítica. Claro que Soares não estava sozinho – houve muitos outros que se distinguiram durante a transição para a democracia, Ernesto Melo Antunes, Francisco Sá Carneiro e General Ramalho Eanes, para citar apenas alguns – e Frank Carlucci conhecia-os e trabalhou com todos eles. Mas é preciso que se diga que a principal questão política do dia era se os socialistas portugueses iriam rejeitar influências radicais e garantir um futuro democrático e europeu para Portugal. Coube a Mário Soares e à sua liderança garantir que isto acontecia e felizmente aconteceu.

Vou terminar a minha intervenção – estou aqui entre vocês e o maravilhoso espectáculo da Mariza. E termino dizendo que Frank Carlucci deixou um tremendo – até assustador – legado aos seus sucessores. Sinto isso todos os dias. O seu mandato aqui e a política americana que ele defendeu, projectou e aplicou são o melhor exemplo que temos da amizade e confiança que os Americanos nutrem pelos seus amigos portugueses. Ao homenagearmos Frank Carlucci dando o seu nome a esta casa, lembramos que os fortes laços de amizade entre os nossos países foram criados por líderes como Carlucci e Soares. Comprometemo-nos a manter este espaço de diálogo, diplomacia e democracia para as gerações vindouras.

E assim convido toda a gente a fazer comigo um brinde à memória de Frank Carlucci e à duradoura aliança e amizade entre os nossos dois países que ele tanto fez para preservar e defender.